Em um mundo que nos ensina a correr — contra o relógio, pelas conquistas, atrás de sonhos cada vez mais distantes, a gratidão surge como um ato de quietude. Não é sobre parar, mas sobre perceber. Não é um exercício de positividade tóxica, como se a vida fosse uma lista de afazeres a serem marcados com sorrisos. É, antes, uma escolha íntima de reconhecer que, mesmo nos dias mais cinzentos, existem pequenas cores que insistem em brilhar.

Há uma ciência por trás desse sentimento, é claro. Estudos da psicologia positiva mostram que a gratidão ativa regiões do cérebro associadas à recompensa e à conexão social, liberando dopamina e serotonina — neurotransmissores ligados ao bem-estar. Mas reduzir seu impacto a reações químicas seria ignorar sua essência mais profunda. A gratidão é, antes de tudo, uma narrativa. Uma história que contamos a nós mesmos sobre o que vale a pena ser lembrado.
Conheci uma vez uma mulher que mantinha um caderno debaixo do travesseiro. Todas as noites, antes de dormir, ela anotava três coisas pelas quais era grata. Não eram feitos grandiosos: o cheiro de café fresco pela manhã, uma mensagem inesperada de um amigo, o silêncio raro da cidade em um domingo de chuva. Durante anos, ela enfrentou desafios como perdas, doenças, incertezas, mas o caderno seguia ali, como um testemunho de que a vida nunca é apenas uma coisa. "Escrever me obriga a procurar a beleza escondida nos cantos", ela me disse.
A gratidão, porém, não é um remédio para a dor. É um modo de navegá-la. Quantas vezes confundimos a exigência de "ser grato" com a negação do sofrimento? Um amigo que perdeu o emprego recentemente me contou que, no auge da frustração, começou a se culpar por não enxergar "o lado bom". Até que um dia, caminhando sem rumo, reparou em um homem que dormia na calçada e segurava um cachorro no colo, ambos cobertos por um casaco surrado. "Aquele homem não tinha quase nada, mas tinha algo para proteger", ele refletiu. Não era uma lição de moral, mas um lembrete involuntário de que a humanidade persiste mesmo na precariedade.
Há um risco em romantizar a gratidão, é verdade. Vivemos em uma era de comparações constantes, onde as redes sociais nos bombardeiam com vidas perfeitas que não existem. Ser grato não significa ignorar as injustiças ou fingir que tudo está bem quando não está. Significa, talvez, encontrar um fio de luz que nos permita seguir em frente sem apagar a escuridão ao redor. Como escreveu o poeta Thiago de Mello, "Faz escuro, mas eu canto".

Perguntei a um grupo de pessoas o que as fazia sentir gratidão. As respostas variavam: um filho aprendendo a andar, um prato de comida quente após um dia exaustivo, a memória de alguém que partiu. Um senhor de 82 anos sorriu e disse: "Agradeço por ainda conseguir sentir raiva. Significa que estou vivo". Naquele momento, entendi que gratidão não é um destino, mas uma forma de viajar.
Talvez o maior desafio seja incorporá-la ao cotidiano sem transformá-la em obrigação. Não precisamos de rituais complicados. Basta uma pausa — para notar o abraço demorado de quem amamos, o livro que nos fez companhia em uma noite solitária, ou simplesmente o fato de respirarmos. A vida não promete felicidade constante, mas oferece fragmentos de sentido. Cabe a nós recolhê-los.
No final, a gratidão é um ato de coragem. Um reconhecimento de que, mesmo quando tudo parece desmoronar, ainda há algo — por menor que seja — que nos ancora ao mundo. E, nesse gesto aparentemente simples, descobrimos que transformar o ordinário em extraordinário não é um milagre. É apenas olhar.
Postar um comentário