Há uma história contada em certas tribos africanas sobre um rio que, ao se deparar com o deserto, hesita. “Não consigo atravessar”, lamenta-se. “Vou secar.” Então o vento sussurra: “Permita-se ser carregado pelas nuvens”. O rio duvida, mas se entrega ao sol, evapora, e volta a cair como chuva do outro lado. Espiritualidade, talvez, seja isso: a coragem de se transformar sem perder a essência.


Longe de ser um conceito restrito a religiões ou rituais exóticos, a espiritualidade é o fio invisível que costura perguntas humanas tão antigas quanto a primeira fogueira: Por que existimos? O que nos conecta? Não se trata de buscar respostas definitivas, mas de habitar o mistério com os pés no chão. Em um mundo obcecado por certezas, cultivar espiritualidade é abraçar a ambiguidade da existência — e encontrar beleza nela.

Conheci um marceneiro em Ouro Preto que passava tardes inteiras esculpindo santos em madeira. “Não faço isso por fé”, ele me confessou, as mãos calejadas acariciando o rosto de uma imagem quase pronta. “É que, quando entalho, sinto que faço parte de algo maior. A madeira já foi árvore, chuva, luz do sol... Agora vira arte. Tudo muda, mas nada some.” Seu nome, para todos os efeitos, era José, e sua oficina cheirava a resina e tempo. Não usava palavras como “karma” ou “energia”, mas sua fala transbordava uma sabedoria que livros raramente capturam.

A espiritualidade contemporânea muitas vezes se perde em marketings do sagrado: aplicativos de meditação com notificações irritadas, incensos caros prometendo “elevação imediata”. Mas o essencial resiste à lógica do consumo. Uma amiga, mãe solteira de dois filhos, me disse que sua prática espiritual são os quinze minutos diários em que prepara o café da manhã. “Corto frutas, ouço a chaleira assobiar, e penso: Estou viva. Eles estão vivos. É meu momento de rezar.” Não há mantra mais poderoso.

Há quem tema que espiritualidade seja uma fuga da realidade. Lembro-me de um jovem ativista que trabalhava em um projeto social no Rio de Janeiro. “Antes, eu achava que falar de ‘alma’ era coisa de gente alienada”, contou. “Até perceber que, sem reconhecer a dignidade sagrada em cada morador de rua, meu trabalho virava só caridade vazia.” Sua revolução começou quando trocou o termo “assistido” por “irmão”. A verdadeira espiritualidade não nos afasta do mundo — nos joga nele de olhos abertos.

A ciência começa a esboçar pontes entre o espiritual e o material. Pesquisas sobre neuroteologia revelam que práticas como meditação e oração alteram padrões cerebrais, estimulando áreas ligadas à empatia e à resiliência. Mas reduzir a experiência humana a neurônios seria como explicar o oceano apenas pela composição da água. Quando o físico quântico Erwin Schrödinger escreveu “A consciência é um singular do qual o plural é desconhecido”, não estava fazendo poesia. Estava apontando para o paradoxo central de nossa existência: somos indivíduos, mas participamos de um todo indizível.

Espiritualidade não é transcendência. É imanência. Está no pão que sovamos com as mãos, na rachadura que aparece no vaso favorito (e que, segundo os japoneses, torna a peça mais bela), no silêncio que compartilhamos com alguém sem precisar preenchê-lo. É o que acontece quando parafraseamos Rumi: “Você não é uma gota no oceano. Você é o oceano inteiro em uma gota” — e entendemos que isso não é metáfora.


Num planeta onde algoritmos ditam nossos desejos, cultivar espiritualidade é um ato político. Lembra-nos de que somos mais que dados, produtividade ou curtidas. “Quando você faz o simples com plena atenção, o universo cabe em um gesto”.

No fim, talvez espiritualidade seja apenas isso: a arte de se surpreender. De enxergar o extraordinário no trivial, o eterno no fugaz, o cosmos na xícara de café esvaziada. Como escreveu Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Resta-nos atravessar — e deixar que o vento nos carregue.

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